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quarta-feira, 15 de julho de 2015

LAODICÉIA – O CRISTO QUE BATE NA PORTA

William Barclay

Apocalipse 3:20

No versículo 20 temos uma das imagens mais famosas de Cristo em todo o Novo Testamento "Eis aqui", diz o Cristo ressuscitado, "eu estou à porta e chamo." Esta imagem deriva de duas fontes diferentes.
(1) Tem sido interpretado como uma advertência com relação à iminente vinda de Cristo em glória. O cristão deve ser como o homem que está sempre preparado para abrir a porta quando seu senhor bate (Lucas 12:36). Quando se produzirem os sinais, o cristão saberá que o fim está perto (Marcos 13:29; Mateus 24:33). O cristão deve viver bem e viver no amor porque sabe que seu juiz está às portas (Tiago 5:9). É evidente que o Novo Testamento usa esta imagem para expressar a iminência da vinda de Cristo. Se esta é a interpretação que se deve atribuir, nossa imagem contém, ao mesmo tempo, uma advertência, e diz aos homens que devem cuidar-se porque Jesus Cristo, o Juiz e Rei de todos os homens, está às portas.
(2) Não podemos dizer que esse primeiro significado é impossível; entretanto, não pareceria ajustar-se ao contexto, porque a atmosfera geral da passagem não é a ameaça ou a advertência mas sim a expressão de um amor ofegante. É muito melhor interpretar esta afirmação de Jesus como uma expressão de amor para com, os homens. Neste sentido devemos buscar a fonte desta passagem nas porções mais tenras do Cântico dos Cânticos, quando o noivo está à porta da habitação de sua amada e pede que o deixe entrar. “Eis a voz do meu amado, que está batendo: Abre-me...” (Cantares 5:2-6). Aqui o amante é Cristo, que bate na porta dos corações dos homens. Nesta imagem percebemos algumas das verdades mais importantes da religião cristã.
(a) Vejamos os rogos de Cristo. Cristo está à porta do coração humano e roga. O único fato verdadeiramente único que o cristianismo contribuiu ao mundo é seu conceito de Deus como Aquele que busca o homem. Não há nenhuma religião que possua esta noção.
Em seu livro Out of Nazareth Donald Baillie cita três testemunhas do caráter verdadeiramente único desta surpreendente concepção. Montefiore, o grande estudioso judeu da Bíblia, disse que "a única coisa que jamais ocorreu aos profetas ou aos rabinos judeus, foi a concepção de um Deus que sai à busca do homem pecador que não estava buscando a Deus e que inclusive se afastou deliberadamente
dEle." Era suficiente, para eles; pensar que Deus era misericordioso para aceitar os homens que voltassem a Ele arrependidos; mas superava totalmente sua fé a possibilidade de que Deus saísse em busca do pecador não arrependido.

O Conselho Nacional Cristão do Japão redigiu um documento no qual tentava estabelecer claramente a diferença entre o cristianismo e outras religiões, e em um dos parágrafos que finalmente foram dados a conhecer, dizia: "A principal diferença é que não é o homem quem busca a Deus mas sim Deus que toma a iniciativa e sai para buscar o homem." O barão von Hugel, um grande teólogo alemão, gostava muito de repetir umas palavras que São Bernardo dizia sempre a seus monges:
"Por mais cedo que vocês se levantem pela manhã para ir rezar na capela ou nas noites mais frias do inverno, creiam que Deus sempre estará acordado antes de vocês , esperando-os; sim, Ele é quem despertou em vocês o seu sonho para que busquem seu rosto."
Aqui temos a imagem do Deus que busca, do Cristo que chama, de Cristo amante que suplica, de Cristo que pede para entrar no coração do homem pecador, até daquele que não quer recebê-lo. Por certo, nenhum amor poderia chegar tão longe.
(b) Vemos qual é a oferta de Cristo. A palavra que se traduz "cear" é muito significativa. Os gregos faziam três refeições por dia. O café da manhã consistia num pedaço de pão seco molhado em vinho. O almoço, ou refeição do meio-dia, em geral não se tomava necessariamente na casa; consistia de algum bocado frio que se consumia ao estilo "piquenique", à beira do caminho ou em alguma colunata ou no lugar da cidade. A refeição da noite, ou jantar, era a principal do dia. Os comensais participavam dela à vontade, tomando tempo para a observação, pois o trabalho do dia já havia terminado; não havia nada para fazer depois e portanto podia dedicar-se todo o tempo que se quisesse à conversa amável entre amigos. A palavra que se usa em nossa passagem é a que designa a ação de participar desta ultima refeição do dia. Cristo participaria da ceia com aqueles que respondessem a seu chamado. Não se tratava de uma comida rápida, de passagem, mas sim de um momento de íntima fraternidade com Ele, sem apuros nem interrupções.
(3) Vemos a responsabilidade humana. Cristo bate na porta; a gente pode responder a esse chamado ou ignorá-lo. Cristo não entra sem que se abra a porta. Deve ser convidado a fazê-lo. Até no caminho do Emaús “Fez ele menção de passar adiante” (Lucas 24:28). Jesus Cristo nunca nos vai obrigar a que o recebamos ou aceitemos: espera até que nós estamos em condições de pedir-lhe para entrar.
Holman Hunt tinha razão quando ao representar esta cena num quadro que se tornou famoso (intitulado A luz do mundo), pintava a porta do coração humano sem maçaneta pelo lado de fora. Somente de dentro ela pode ser aberta.

Tal como afirma R. C. Trench: "Cada homem é o senhor de seu próprio coração; este é sua fortaleza; ele próprio deve abrir suas portas, quando deseja fazê-lo." Possui "a prerrogativa e o privilégio de negar-se a abrir". O homem que se nega a deixar Cristo entrar em seu coração "é cego com relação à sua própria bem-aventurança". É um "miserável vencedor". Cristo solicita. Cristo oferece. Mas tudo isto será em vão se nós não lhe abrirmos e o convidarmos a entrar.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

AKOLOUTHEIN - A PALAVRA DO DISCÍPULO

Akolouthein é o verbo grego comum que significa seguir. É uma palavra com muitos usos e muitas associações, e todos eles acrescentam alguma coisa ao seu significado para o seguidor de Cristo, Em primeiro lugar, examinemos o seu uso e o significado no grego clássico.
(i) É a palavra comum e usual para os soldados que seguem seu líder e comandante. Xenofonte (Anabasis 7.53) fala dos líderes que seguiram o líder por quem lutavam.
(ii) É muito comumente usada para o escravo que segue ou aten­de seu senhor. Teofrasto, no seu esboço da personalidade do Homem desconfiado, diz que tal homem obriga seu escravo a andar na sua frente ao invés de segui-lo, conforme o escravo normalmente faria, a fim de ter a certeza de que o escravo não fugirá de repente (Teofrasto; Caracte­res 18.8).
(iii) É comumente usada para seguir ou obedecer ao conselho ou à opinião doutra pessoa. Platão diz que é necessário descobrir aque­les que são capacitados pela natureza para serem líderes na filosofia e no governo, e aqueles que são capacitados pela natureza para serem segui­dores do líder (Platão: República 474c). Algumas pessoas são aptas pa­ra oferecer liderança; outras são aptas apenas para aceitá-la.
(iv) É comumente usada para obedecer às leis. Seguir as leis de uma cidade é aceitá-las como padrões da vida e comportamento.
(v) É freqüentemente usada para seguir o fio ou argumento de um discurso. Quando o argumento chegou a uma posição difícil, Sócra­tes diz: "Vamos, por favor! Procure seguir-me, para ver se podemos obter uma explicação adequada desta questão" (Platão: República 474c).
(vi) Nos papiros, akolouthein é muito usado para ligar-se a alguém a fim de obter algum favor que é desejado. Alguém escreve dando um conselho para outra pessoa: "apegue-se a Ptolário o tempo todo... Apegue-se a ele para você se tornar o seu amigo," A idéia é de seguir uma pessoa até que o favor desejado finalmente seja obtido.
Cada um destes usos pode lançar luz sobre a vida cristã.
O cristão ocupa a posição do soldado que segue Jesus Cristo e que deve imediatamente obedecer a palavra de ordem do seu líder.
O cristão ocupa a posição do escravo que deve obedecer tão logo seu senhor fale.
O cristão deve pedir o conselho e o pronunciamento de Jesus Cristo e deve ter a humildade de segui-lo, seja ele qual for.
O cristão é o homem que deseja a cidadania do Reino dos Céus, e, a fim de recebê-la, deve concordar em viver de acordo com as suas leis.
O cristão é o aprendiz e o ouvinte que deve escutar as palavras de Jesus, e que deve seguir o seu argumento a fim de que possa aprender, dia após dia, cada vez mais da sabedoria que Jesus sempre está querendo lhe ensinar.
O cristão sempre está na posição de quem necessita e deseja o fa­vor, a graça e a ajuda que Jesus Cristo pode-lhe dar, e que segue a Cris­to porque é somente nEle que vê suas necessidades supridas.
Agora, voltemo-nos para o uso de akolouthein no próprio NT. É muito freqüente ali,
(i) É usado para os discípulos que deixaram as suas várias profis­sões e ocupações e seguiram a Jesus. Assim é usado no tocante a Pedro e André (Mc 1.18; cf, Mt 4.20). Ê usado para os dois discípulos de João Batista que seguiram a Jesus quando João apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 137), Ê usada para a reação dos discípulos depois da pesca milagrosa; deixaram tudo e seguiram a Jesus (Lc 5-11). A decla­ração dos discípulos perto do fim é que deixaram tudo para seguirem a Jesus (Mt 19.27). É usado para os discípulos em potencial, aos quais Jesus disse que deviam pensar de novo antes de se lançarem na aventura de segui-Lo (Mt 8.19; cf. Lc 9,59,61).
(ii) É a palavra que Jesus usava para conclamar os homens para Si. Nos lábios de Jesus é a palavra do desafio. Seu mandamento a Ma­teus é: Segue-me! (Mc 2.14; cf. Lc 5,27; Mt 9.9). É o mandamento de Jesus a Felipe (Jo 1,43). Ê o Seu mandamento final a Pedro (Jo 21. 19, 22). É Seu mandamento, não obedecido, ao jovem rico (Mt 19.21; cf. Lc 18,22), Seu mandamento a todos os Seus seguidores em poten­cial é que tomem a sua cruz e sigam-No (Mc 8,34; 10.21; Mt 1038; 16. 24; Lc 9,23),
(iii)O modo mais comum para esta palavra é a respeito das multi­dões que seguiam a Jesus (Mt 4,25; 8.1; 12.15; 14.13; 19.2; 20.9; 21.9; Mc 3.7; 5.24; 11.9; Jo 6.2). Este uso tem um vínculo bem estreito com o uso do verbo nos papiros para descrever o ato de apegar-se a alguém até que um pedido seja concedido. Às vezes, as multidões seguiram a Jesus para receber Seu poder de cura; às vezes, seguiam-No para escutar as Suas palavras; e às vezes, perto do fim, seguiam-No com admiração para ver o que Lhe aconteceria. Outro exemplo deste uso de akolou­thein no sentido de seguir, a fim de receber um favor acha-se em iVit 9,27, onde se diz que dois cegos seguiam a Jesus a fim de que Ele os curasse.
(iv) Às vezes, o seguir é o resultado de gratidão. Em Mt 20.34 es­tá escrito que os dois cegos seguem a Jesus depois de terem recobrado sua visão; o mesmo se diz a respeito do cego em Lc 18,43; e de Barti­meu em Mc 10,52. Seguiam porque foram atraídos pela gratidão por aquilo que Jesus fizera.
(v) Em Mc 2.15 está escrito que os pecadores seguiam a Jesus. Este é um uso muito relevante. Havia na pessoa de Jesus algo que, segun­do sabiam, satisfaria as suas necessidades; teriam evitado um fariseu, mas seguiam a Jesus, porque sabiam que Ele conhecia e compreendia a situação deles.
Podemos distinguir nestes usos de akolouthein cinco razões para seguir a Jesus.
(i) Os discípulos seguiam a Jesus por causa da pura atração cons­trangedora da Sua conclamação,
(ii) As multidões seguiam a Jesus porque desejavam as coisas que somente Ele lhes podia dar.
(iii) Os pecadores seguiam a Jesus porque sentiam que somente Ele poderia capacitá-los a colocarem suas vidas em ordem e começar de novo.
(iv) Os cegos seguiam a Jesus a fim de recuperarem a sua visão. Desejavam experimentar o Seu poder de operar milagres.
(v) Os cegos cujos olhos foram abertos seguiam a Jesus em pura gratidão por aquilo que Ele lhes fizera.
Vemos ali, resumidamente, os motivos que levam o coração a apro­ximar-se de Jesus Cristo.
Estudar os usos de akolouthein nos Evangelhos nos trará maior recompensa ainda:
1. Devemos ver o que envolve o seguir a Jesus.
(i) Seguir a Jesus envolve calcular o preço. Em Lucas 9.59, 61, parece que Jesus realmente desencoraja as pessoas a seguí-Lo até que Ele tenha averiguado com certeza que elas sabem o que estão fazendo. Jesus não quer que ninguém O siga sob falsos pretextos, nem aceita uma oferta emotiva e facilmente movida de um serviço que não foi pesado na balança.
(ii) Seguir a Jesus envolve sacrifício. Repetidas vezes é indicado o que as pessoas abandonaram a fim de segui-Lo. (Lc 5.11; Mt 4.20, 22; 19,27). A verdadeira lição para nós neste fato é que seguir a Jesus é aquilo que na linguagem de hoje é chamado em emprego de tempo in­tegral. Mas para nós há a seguinte diferença — seguir a Jesus importa em servi-Lo dentro do nosso emprego, e não em abandonar o emprego. Em muitos casos, seria muito mais fácil deixá-lo; mas nosso dever é ser testemunha dEle onde quer que Ele nos mande.
(iii) Seguir a Jesus importa numa cruz (Mt 16.24; cf Mc 8.34 e Lc 9,23). A verdadeira razão disto é que ninguém pode seguir a Jesus e, a qualquer tempo, voltar a fazer o que bem entende. Seguir a Jesus muito provavelmente implicará no sacrifício dos prazeres, dos hábitos, dos alvos e das ambições que se entrelaçaram em nossas vidas. Seguir a Jesus sempre implica neste ato de rendição — e a rendição nunca é fá­cil.
2. Devemos ver o que é oferecida a quem segue Jesus. Nesta questão há duas grandiosas promessas do Quarto Evangelho.
(i) Seguir a Jesus significa andar, não nas trevas, mas na luz (Jo 8.12)- Quando o homem anda sozinho, anda nas trevas da incerteza, e facilmente pode acabar ficando nas trevas do pecado. Andar com Jesus é ter certeza do caminho, é estar a salvo acompanhado por Ele.
(ii) Seguir a Jesus é ter a certeza de finalmente chegar à glória on­de Ele mesmo está (Jo 12,26). Este é o outro lado da advertência de que seguir a Jesus importa em sacrifício e cruz. O sacrifício e a cruz não são destituídos de finalidade, São o preço da glória eterna. Jesus nunca prometeu um caminho fácil, mas realmente prometeu um cami­nho cujo ponto final levaria ao esquecimento das dificuldades da cami­nhada.
3. Devemos ver que há maneiras inadequadas de seguir a Jesus. Estas maneiras não são condenáveis, São infinitamente melhores do que nada, mas não são as melhores.
(i) No fim, Pedro seguiu a Jesus de longe (Mt 26.58; cf. Mc 14. 54 e Lc 22.54). A verdadeira razão é que Pedro não ousava seguir mais de perto; e a verdadeira tragédia é que se Pedro tivesse permanecido perto de Jesus, a desgraça da sua negação nunca precisaria ter aconteci­do; foi quando Pedro viu o rosto de Jesus que descobriu o que havia fei­to com suas repetidas negações,
(ii) Na última viagem para Jerusalém, os discípulos seguiram toma­dos de apreensões (Mc 10.32). De certo modo, aquela ação era a mais corajosa de todas. Não compreendiam o que estava acontecendo; temiam o pior; mas ainda seguiam a Ele. Podemos obter consolo da lembrança de que freqüentemente o homem que segue a Cristo com temor e tremor está demonstrando a mais sublime coragem de todas.
4. Finalmente, devemos notar que um homem pode recusar-se a seguir a Jesus, Foi isto que o jovem rico fez (Mt 19.21; cf. Lc 18.22). O resultado da sua recusa foi que se afastou com tristeza. O resultado da recusa sempre é a tristeza; o resultado de seguir, por mais árduo e assus­tador que seja o caminho, sempre é a alegria.

Fonte: BARCLAY, William. Palavras gregas do Novo Testamento. vol. 1. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010.

COMO ERAM AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO?

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