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terça-feira, 15 de maio de 2018

REFLEXÕES NO SALMO 119


SINCERIDADE E FRAQUEZA

Eu te busco de todo o coração; não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos (Sl 119.10, NVI). 

No v. 9, o sábio propôs uma pergunta retorica com o objetivo de introduzir sua instrução aos jovens. Lá, o sábio chama a atenção para o fato de que a lei de Deus é o padrão normativo claro a partir do qual o jovem pode comparar, observar, testar, vigiar a sua conduta. No v. 10, “há uma profunda conexão entre esforçar-se pela perfeição moral e a percepção de que a inquirição é impossível sem a ajuda divina”[1]. Em outras palavras, para que o jovem seja irrepreensível na sua conduta moral ele deve buscar a Deus com sinceridade e integridade, de todo o seu coração, mas também com humildade, sabendo que a fraqueza da nossa carne sempre frustra nossos intentos mais ardentes de servir a Deus. Kirkpatrick captou o desejo do coração do salmista: “não me deixe errar por ignorância ou inadvertência (19.12; v. 67). Minha intenção é boa, mas meu conhecimento é imperfeito e minha força é pequena”[2]. 

Calvino e Matthew Henry interpretam o versículo em termos de uma experiência passada da graça pela qual se ora para que continue no presente. É como se o salmista estivesse antecipando Paulo em Filipenses 1.6: “Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (NVI). Agostinho também segue essa interpretação. “Que quer dizer ser repelido por Deus, a não ser: não receber auxílio? A fraqueza humana não se adapta bem aos mandamentos retos e árduos, a não ser com o auxílio da caridade preveniente”[3]. 

A autoconfiança da primeira parte do versículo é temperada com o reconhecimento da carência da graça na segunda. Aceitar a responsabilidade pela nossa vida moral deve vir acompanhada do reconhecimento de que precisamos do apoio do Senhor para cumprir essa responsabilidade. Mais uma vez, Paulo nos ajuda a entender o que é dito pelo salmista: “Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele (Fp 2.12-13, NVI). 

Desviar-se não é apenas um problema dos jovens; as pessoas se perdem na meia-idade e na vida adulta[4]. O único que buscou ao Senhor de todo o seu coração e jamais afastou-se dos seus mandamentos foi Jesus. Quanto a nós, não creio que possamos buscar a Deus de todo o nosso coração desse lado da eternidade. Essa é uma realidade que será plenamente atingida no novo céu e na nova terra. A razão para isso é que os nossos corações são enganosos e corruptos (Jr 17. 8-9), o mundo nos seduz muitas vezes (1 Jo 2.15-17), e o diabo, nosso adversário, não dá trégua nenhum segundo se quer (Ef 6.10ss). A orientação de Calvino é oportuna: “quanto mais uma pessoa se vê socorrida por Deus, tanto mais deve sentir-se induzida a implorar mais cautelosa e solicitamente a continuação do seu auxílio; pois, a menos que Ele nos refreie, vacilaremos e nos desviaremos instantaneamente”[5]. Para que o jovem possa manter pura a sua conduta, sinceridade e integridade devem vir sempre unida à humildade. “Minha intenção é boa, mas meu conhecimento é imperfeito e minha força é pequena”.


[1] BÍBLIA, Português. Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª edição, revisada e ampliada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição revista e atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil (SBB); São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009. 

[2] KIRKPATRICK, A. F. The Book of Psalms. Vol 3. Cambridge: University Press, 1897. p. 707. 

[3] SANTO AGOSTINHO. Comentários aos Salmos (Salmos 101-150). Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus, 1998. p. 183-4. 

[4] GOLDINGAY, John. Baker commentary on the Old Testament: wisdom and psalms. Michigan: Baker Academic, 2013. 

[5] CALVINO, João. Salmos. Vol. 4. Trad. Valer Graciano Martins. São Paulo: Editora Fiel, 2013. (Ebook).

segunda-feira, 16 de abril de 2018

REFLEXÕES NO SALMO 119

A JUVENTUDE PIEDOSA
Como pode o jovem ter uma vida limpa e pura? Vigiando os seus passos conforme a tua palavra. (Sl 119.9, Bíblia Viva)

A pergunta desta estrofe, ainda que retórica, põe em evidência um dos maiores problemas práticos da vida: como (ou com o que) viver uma vida irrepreensível? Ou, nas palavras de Spurgeon: “como (o jovem) poderá conquistar o certo e conservar o certo?”[1]. Não precisa dizer que quem escreve essas palavras é possivelmente um velho. Como professor de sabedoria, o sábio está preocupado com a instrução dos jovens. A falta de experiência é notória nessa idade. Eis aí a razão porque o sábio diz ao filho ou discípulo (ver Pv 1:4; 25:12-13; Ec 11:9; 12:1), que ele pode manter-se “puro” - equivalente a “irrepreensível” (v. 1) e “firme” (v. 5) - pela prática da piedade[2]. 

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, não tem lugar aqui. Por sua experiência, o professor sabe que obedecer à vontade revelada de Deus é o único caminho para qualquer membro da comunidade da aliança viver irrepreensivelmente. Assim, a grande pergunta, a que vem antes de todas, que o jovem piedoso deve se propor não é sobre com quem vai se casar, ou que faculdade vai cursar, ou se será bem sucedido profissionalmente. Todas essas perguntas são válidas e importantes. Entretanto, na aurora da vida, a pergunta mais importante é aquela que afetará também seu ocaso: como viver de modo irrepreensível?

A pergunta é importante, e suscita outras tantas perguntas igualmente importantes e complexas. Elifaz e Bildade, dois amigos de Jó, lhe fizeram as seguintes perguntas, respectivamente: "Como o homem pode ser puro? Como pode ser justo quem nasce de mulher? Como pode então o homem ser justo diante de Deus? Como pode ser puro quem nasce de mulher?” (Jó 15:14; 25:4, NVI). Para piorar, Salomão dispara à queima roupa a seguinte indagação: “Quem poderá dizer: ‘Purifiquei o coração; estou livre do meu pecado?’" (Pv 20:9, NVI). Esses versículos são cristalinos no seu diagnóstico do estado moral e espiritual do homem: diante de Deus e comparada com Deus, toda a humanidade permanece manchada e suja.

No entanto, apesar de flagrante situação, Isaías exorta as pessoas a se purificarem: “As vossas mãos estão cheias de sangue: lavai-vos, purificai-vos! Tirai da minha vista as vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva!” (Is 1:15a-17). “Mesmo se não pudermos nos tornar absolutamente puros, somos responsáveis ​​por nos purificar do tipo de imundície que Isaías descreve. A impossibilidade da perfeição sem pecado não nos desculpa de levar a sério as exigências de Deus”[3]. 

As perguntas parecem convergir para a resposta do sábio: “vigiando os seus passos conforme a tua palavra”. A implicação é que o jovem manter-se-á puro à medida que comparar, controlar, vigiar, observar sua conduta de acordo com a palavra do Senhor. O conselho de Spurgeon[4] ainda é válido: “querido jovem, que a Bíblia seja seu mapa, e que você exerça grande vigilância para que seu caminho se amolde a suas diretrizes”.

Antes de encerrar destacamos o termo "Palavra" (dābār), que ocorre vinte e quatro vezes neste salmo. Seu significado básico é o de que qualquer palavra que proceda da boca do Senhor é dābār. É uma designação mais geral para a revelação divina, seja do ponto de vista da expectativa ou da promessa[5]. Da expectativa, porque se espera dos membros da aliança que vivam pelo mandamento do Senhor. Da promessa, porque se sabe que eles falham em cumprir o seu dever, por isso, a promessa é que Deus os ajudará graciosamente a fazê-lo.

À luz da Nova Aliança, a pergunta de Elifaz e Bildade só encontrou uma resposta satisfatória na cruz de Cristo. Como pode ser justo quem nasce de mulher? A resposta de Paulo é que só Deus pode nos justificar. Sabemos que pela obediência à lei o homem não alcançou a justiça de Deus (Rm 7). Quanto mais tentava obedecer à lei, tanto mais ficava evidente o abismo que o separava do elevado padrão de Deus. Desse modo, somente quando confiamos inteiramente em Cristo Jesus para a nossa salvação é que entendemos que “o homem é justificado pela fé, independente da obediência à lei” (Rom 3:21-28, NVI). Não foi o que fizemos que forçou Deus a nos declarar justo, mas o que Cristo fez por nós e em nosso lugar. O único homem justo que nasceu de mulher foi Cristo. A razão é que somente um homem puro poderia satisfazer as exigências da justiça de Deus. Como pode ser justo quem nasce de mulher? Crendo em Cristo, a nossa propiciação.

Querido jovem, em Cristo Jesus você tem uma nova vida. O fato de não sermos justificados diante de Deus pela lei, não nos exime de obedecer a Palavra de Deus. Não a obedecemos com a expectativa de sermos perfeitos ou salvos. Como já dissemos isso nos é impossível. Obedecemos porque amamos a Deus. Na caminhada haverá muitos percalços e até fracassos. Mas não desista. Siga em frente. A boa nova do evangelho é que Deus proveu um meio para nos purificar: o sangue de Jesus (1 Jo 1.7-10, NVI). Siga sempre a orientação da Palavra de Deus e você terá uma vida limpa e pura. Que Deus o ajude.

Jânio da Cunha Bastos

[1] SPURGEON, C. H. Salmo 119: o alfabeto de ouro. Trad. Valer Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 2001. p. 26.

[2] VANGEMEREN, Willem A. The expositor’s Bible commentary: Psalms. Michigan: Zondervan, 2008.

[3] GOLDINGAY, John. Baker commentary on the Old Testament: wisdom and psalms. Michigan: Baker Academic, 2013.

[4] Idem, p. 27.

[5] VANGEMEREN, 2008.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Reflexões no Salmo 119


NÃO ME ENVERGONHAREI
Então, não me envergonharei quando comparar minha vida com os teus mandamentos (Sl 119.6, NTV).
Fonte: Google Imagens

No mundo antigo, honra e vergonha são dois valores fundamentais nas culturas tradicionais que viviam em torno da bacia do Mediterrâneo. Ambos os valores evocam a ideia de uma convenção ou padrão socialmente estabelecido a partir do qual uma comunidade julga a conduta individual dos seus membros, considerando-os bem-aventurados ou desafortunados na medida da incorporação e adequação ou não a esse padrão[1]. No caso da comunidade da antiga aliança, o padrão não é uma convenção, mas uma revelação da vontade do grande Deus de Israel, que estabeleceu sua aliança com o seu povo. Nesses termos, uma pessoa é honrada quando se conduz nos termos da aliança, conformando sua vida às exigências nela contidas. Essa é a razão porque o salmo começa com o ideal, com o padrão. “Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do Senhor! Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam!” (Sl 119.1,2, NVI). A paráfrase da Bíblia Viva, do presente versículo, capta o sentido: “fazendo isso, eu sei que ninguém poderá me acusar de coisa alguma, porque dou o devido valor a todas as tuas regras de vida”. “Obediência gera prosperidade e, portanto, honra; a desobediência gera problemas e, portanto, é uma vergonha”[2].
            Nos termos da nova aliança, Tiago, o irmão do Senhor, afirma, por meio de uma metáfora, que a Palavra de Deus é um espelho. Quando nos vemos refletidos nela, não é meramente o que somos que ela nos mostra, mas o que deveríamos ser. “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer” (Tg 1.22-25, NVI). Perceba que Tiago está comparando os efeitos práticos da Palavra de Deus na conduta dos que se encontram com ela. Esquecer e perseverar são as palavras-chave. Na vida de alguns, os efeitos dela são passageiros. Nenhuma mudança real nas ações é concretizada. Para outros, entretanto, aqueles que perseveram em obedecê-la, evidenciam em suas ações as mudanças promovidas por essa Palavra. Honra e vergonha são contrastadas pelas ações que atestam respeito ou desprezo pela revelação de Deus. A obediência gera bem-aventurança.
            Entretanto, não podemos esquecer que na nova aliança o nosso ideal ou padrão encarnou-se, tornou-se homem. Jesus, segundo Mateus, é o cumprimento de todas as sombras, tipos e símbolos da Lei. Tudo converge para Ele. “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.20, ARA). Não por acaso João afirma que “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou”. Jesus é o homem ideal a partir do qual todos os que estão nele estão sendo moldados. Se na antiga aliança o legalismo era um espectro quase sempre presente na vida dos que queriam se adequar ao ideal da aliança, por gerar a falsa impressão que tudo se resume a uma questão de mérito, na nova, o imperativo “andar como ele andou” é acompanhado do indicativo de que o próprio Deus está trabalhando em nós para que esse ideal seja atingido um dia. Para Paulo, “e todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Co 3:18, ARA). O Espírito de Deus é o artesão que está imprimindo em nós a imagem de Cristo. Que não nos envergonhemos de dizer que ainda somos pecadores, aquém do ideal de Deus. Mas, glorie-se no fato que somos pecadores a caminho da bem-aventurança eterna, de sermos semelhantes ao Filho de Deus.
                   Jânio da Cunha Bastos


[1] GOLDINGAY, John. Baker commentary on the Old Testament: wisdom and psalms. Michigan: Baker Academic, 2013.

[2] ENNS, Peter; LONGMAN III, Tremper (Ed). Dictionary of the Old Testament: wisdom, poetry and writings. Illinois: IVP Academic, 2008. pp. 287-300.

terça-feira, 6 de março de 2018

Reflexões no Salmo 119


COMO DESEJO CUMPRIR TEUS MANDAMENTOS! 

Como desejo obedecer às tuas ordens e cumpri-las com fidelidade! (Sl 119:5, BÍBLIA versão NTLH)















C. S. Peirce (1838-1914), filósofo norte-americano original na abordagem da filosofia da linguagem, no texto “Ideais de Conduta”[1], fala de três modos nos quais os ideais de conduta insinuam-se. Em primeiro lugar, certos tipos de conduta têm uma qualidade estética. Aquele ou aquela que a contempla considera-a bela. Em segundo lugar, o homem se esforça por montar uma imagem ou diagrama no qual seus ideais tenham coerência para a ação. Em terceiro lugar, ele avalia quais consequências acarretariam seus ideais. Essas considerações de Peirce nos ajudam a compreender as palavras do salmista de modo cristalino. Nos versos anteriores ele contempla a beleza da conduta guiada pela lei de Deus. Essa conduta produz bem-aventurança. A imagem da vida feliz é a obediência à lei de Deus. E por fim, ele avalia essa conduta e julga que ela é elevada demais para ele conseguir atingi-la. E quando chega a essa conclusão ele ora. 

Uma coisa é contemplar a beleza do ideal de conduta da Bíblia, outra bem diferente é atingi-lo por si mesmo. Paulo expressou essa angústia em Romanos 7. “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo” (Rm 7:18-19, NVI). Quando tentamos atingir o ideal de conduta bíblico com a finalidade de tornar Deus nosso devedor, ou seja, pagar a nossa obediência com justiça, fracassamos. “O salmista, sensível à sua própria incapacidade, como é todo homem bom, para manter os mandamentos de Deus, ora pela graça, orientação e assistência nela; que os caminhos de sua mente, seus pensamentos, afeições e inclinações possam ser direcionados para a observância dos preceitos divinos” (GIL). E como Deus faz isso? Somente pelo novo nascimento, implantando sua própria vida em nós. “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef 2.10, NVI). 

Não estamos debaixo da lei, mas da graça. Sob a graça, a oração do salmista assume uma nova perspectiva. É o anseio de todo servo e serva de Deus cumprir sua lei, pois expressa a sua vontade. Mas para eles, a lei é o horizonte a nossa frente, o padrão para o qual Deus está nos conduzindo. É isso que ocorrerá conosco quando Ele terminar a sua obra em nós (Fl 1.6). Seremos santos como Ele é santo. Seremos semelhantes à imagem de seu Filho Jesus. Até lá, que oremos as palavras do salmista e de Paulo, que humildemente reconhece “não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3.12-14). O que hoje é apenas um ideal, na eternidade será realidade. 

Jânio da Cunha Bastos



[1] PEIRCE, C. S. Ideais of conduct. Trad . e introd . de Ivo Assad Ibri. Trans/Forml Ação, São Paulo, 8: 79-95, 1985.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Reflexões no Salmo 119

OBEDIÊNCIA EM DEMASIA

Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos. (Sl 119:4)

O Sacrifício de Isaac, Laurent de LaHire, 1650

          

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) propôs que o homem moderno precisa ir além de si mesmo, inverter e criar valores. Isso significa assumir o papel de legislar, tornar-se senhor da sua própria existência, quebrar os grilhões de qualquer forma de metafísica. Nietzsche, entretanto, não foi o “inventor” dessa filosofia. Satanás, no jardim do Éden, já havia proposto sermos legisladores da nossa própria existência. “Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal" (Gn 3:5). Essa é a atitude do homem em rebelião contra Deus, amante de si mesmo (2 Tm 3.2), cujo “pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram” (Rm 1.21). 

Dissidente desse pensamento, o salmista acredita que há um Legislador supremo, que tem esse direito por ser o Criador, Preservador, Redentor e Rei de tudo (GIL). Seu prazer em Deus leva-o a regozijar-se na lei de Deus, que é santa, justa e boa (Rm 7.12), e que emana pessoalmente dEle. Sua ética é normativa. O modo de vida de Israel (e do povo de Deus em geral) não envolve fazer escolhas independentes, como se já fossemos adultos emancipados de nossos pais. O caminho para a vida é o caminho da obediência (Dt 30.15,16). “Deus não nos ordenou ser diligentes em fazer preceitos, mas em guardá-los. Há quem põe jugo em seu próprio pescoço e faz algemas e normas para outros; mas uma diretriz sábia se satisfaz com as normas da Santa Escritura, em relação a todos os homens e em todos os aspectos” (SPURGEON). 

O chamado ao discipulado sob o evangelho permanece sendo um chamado à obediência (Jo 14.23,24; 15.10,14). Jesus disse aos judeus que haviam crido nele (e a nós), “vocês são verdadeiramente meus seguidores se viverem como Eu digo” (BÍBLIA VIVA). É claro que não conseguiremos cumprir perfeitamente a lei de Deus nesta existência decaída (Rm 7). Por isso, faremos bem em orar as palavras de Paulo aos Filipenses: “Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2.12-13). 

Jânio da Cunha Bastos 



terça-feira, 21 de julho de 2015

Retroceder nunca, render-se jamais.

Fonte da imagem: http://www.turmadableia.com/nunca-desista/

Texto Bíblico: Lucas 8.40-42, 49-56.

Eu sei, não precisa me lembrar de que a epígrafe do texto remete ao filme de mesmo nome, que fez muito sucesso entre o público amante das artes maciais na década de 90. Mas, para tristeza desse público, este texto não é uma crítica de cinema, mas uma reflexão sobre outra narrativa, real, que se passou a mais de 2000 mil anos atrás, numa cidadezinha da Galileia, em Israel, chamada Cafarnaum, e que tem por protagonista Jesus e por coadjuvante, Jairo, o príncipe da sinagoga local, um cargo que o distinguia entre os seus pares e lhe dava status, prestígio, respeito e influência entre o seu povo (qualquer semelhança com os políticos atuais é mera coincidência).

Talvez você esteja pensando que interesse essa história teria para você, que vive no século 21, no mundo do prefixo pós (pós-modernidade, pós-industrial, pós-cristão, etc...), globalizado e virtualizado, das grandes metrópoles e megalópoles, com seu frenesi diário. Para não ser prolixo, afinal, você não tem muito tempo para ler este texto, a narrativa é sobre um pai (antes de ser príncipe da sinagoga Jairo era, acima de tudo, pai) que se humilha perante Jesus para que este fosse à sua casa curar a sua filha única que estava à beira da sepultura e de como Jesus prontamente atendeu seu pedido. Chamo a sua atenção para três fatos:

Em primeiro lugar, a posição social de Jairo é fútil diante da morte iminente da sua filha. Mesmo príncipe da sinagoga, possuindo um capital social de prestígio e respeito, nada disso o pode ajudar diante da carranca da morte, que ameaçadora intenta invadir seu lar e levar seu troféu. Aliás, a posição social de Jairo parece ter retardado a sua ida à presença de Jesus.

Em segundo lugar, a posição religiosa de Jairo é fútil diante da morte iminente da sua filha. A religião pode se tornar o maior empecilho no caminha da vida, quando divorciada do princípio do amor. Jairo era, em certo sentido, inimigo declarado de Jesus, pois na sinagoga Jesus havia muitas vezes “quebrado” o sábado, curando pessoas enfermas. A posição religiosa de Jairo parece, também, tê-lo retardado.

Em terceiro lugar, a decisão acertada de Jairo diante da morte iminente da sua filha. Jairo resolveu romper as redes da posição social e religiosa que o imobilizavam e recorrer àquele que é chamado de “a vida” (Jo 14.6), Jesus. O desespero levou Jairo a Jesus, o desespero o levou a romper as malhas da posição social e religiosa, mas nem por isso foi censurado por Jesus, ou acusado de ser um “homem de pequena fé”, por ele pedir a Jesus que fosse com ele a sua casa - diferente do centurião, por exemplo, que se contentou com uma palavra.


Pessoas do século 21 – ou de qualquer outra época – passam (ram) por situações semelhantes e muitas delas “precisam” descer ao abismo do desespero para entenderem que posição social ou religiosa, às vezes, mais atrapalha do que ajuda. A mensagem desta narrativa é que Jesus é a melhor posição diante da vida e da morte, que ele tem o maior interesse em SALVAR você e sua família, independentemente de sua posição social ou religiosa. Por isso, mesmo que digam “não incomodes mais o mestre”, não dê ouvidos, é isso que o mundo atual diz, com sua incredulidade, antes siga o conselho de Jesus a Jairo “não temas, crê somente, e tua filha será salva”. Retroceder nunca, render-se jamais.

COMO ERAM AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO?

O Evangelho de João relata uma passagem da vida de Jesus que leva algumas pessoas a entender que o Espírito Santo não agia entre o povo d...