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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Reflexões no Salmo 119

DETERMINAÇÃO E DEPENDÊNCIA[1]

Obedecerei às tuas leis; peço-te que não me abandones nunca (Sl 119.8, NTLH). 

C. S. Peirce (1838-1914), filósofo norte-americano, no texto “Ideais de Conduta”[2], traçou três aspectos da passagem da reflexão sobre os ideais de conduta para uma ação efetiva. Essa reflexão afeta, primeiramente, a sua disposição. A disposição é a inclinação, a propensão, o desejo, que surge no agente, que o leva a considerar como agirá. O passo seguinte da reflexão é a resolução. A resolução é o plano, o diagrama ou imagem mental desse como agirá. A disposição e a resolução ainda não influenciam necessariamente a conduta. Por isso, o próximo passo é a determinação. Como escreve o filósofo, “através de um processo similar àquele de imprimir uma lição sobre sua memória, cujo resultado é que a resolução, ou fórmula mental, é convertida em uma determinação, pela qual eu quero dizer uma ação realmente eficiente”. Resumindo: primeiro, o desejo de agir sob um determinado ideal, segundo, o plano que delineia como agiremos, e terceiro, a ação propriamente dita. 

Esse processo, é claro, não é tão simples assim. Boa parte dele é inconsciente. Mas ele nos ajuda entender o que o salmista está dizendo no parágrafo inteiro (vv. 1-8). Primeiro, o desejo de agir conforme o ideal da vontade de Deus, revelado em sua palavra, é afirmado no versículo 5. “Como desejo obedecer às tuas ordens e cumpri-las com fidelidade!” (NTLH). Segundo, o plano que delineia “como agir” é sublinhado nos versos 1 a 4 e 6 e 7: “Felizes são os que não podem ser acusados de nada, que vivem de acordo com a lei de Deus, o SENHOR! Felizes os que guardam os mandamentos de Deus e lhe obedecem de todo o coração! Felizes os que não praticam o mal, os que andam nos caminhos de Deus! Tu, ó Deus, nos deste as tuas leis e mandaste que as cumpríssemos fielmente. Se eu der atenção a todos os teus mandamentos, não passarei vergonha. Com um coração sincero eu te louvarei à medida que for aprendendo os teus justos ensinamentos” (NTLH). Terceiro, a determinação de agir efetivamente segundo o ideal: “Obedecerei às tuas leis; peço-te que não me abandones nunca” (Sl 119.8, NTLH). 

Mas, podemos atingir esse ideal por simples atos de vontade? A resposta é não. Por essa razão ele continua a oração iniciada no verso 5. Sua petição é para que Deus não o abandone. Aqui está explícito que YHWH pode ser o agente do abandono, que tem implicações devastadoras, como a morte[3]. Mas, qual é a natureza desse abandono? Calvino[4] entende esse abandono como as provações da nossa fé. O argumento do suplicante seria, então, que manter as leis de YHWH fornece uma base para que isso nunca aconteça, ou não aconteça “completamente”, que YHWH não deveria abandona-lo excessivamente ou seriamente[5]. Assim, Calvino parafraseou o versículo na forma de uma oração: “Ó Deus, tu vês o meu estado de espírito; e, sendo eu apenas um homem, não ocultes de mim, por tempo demasiadamente longo, os sinais de teu favor, nem demores a ajudar-me, por mais tempo do que sou capaz de suportar, para que, imaginando estar esquecido de ti, não me afaste do rumo certo da piedade”[6]

Desejar, planejar e agir são os passos dados na direção do ideal de conduta delineado no primeiro parágrafo do Salmo 119. Determinação e dependência são os termos que sublinham as duas partes do texto em epígrafe. Ao mesmo tempo em que assume o compromisso e responsabilidade de viver segundo a Lei de Deus, o salmista reconhece que sem a ajuda da graça divina não iria muito longe nesse caminho. Para encerrar a nossa reflexão, julgamos oportuno citar Barnes, para quem a “sua confiança (a do salmista) de que ele guardaria os mandamentos de Deus baseava-se na oração de que Deus não o deixaria. Não há outro motivo de persuasão para podermos guardar os mandamentos de Deus do que aquele que repousa na crença e na esperança de que Ele não nos deixará”[7]

[1] SPURGEON, C. H. Salmo 119: o alfabeto de ouro. Trad. Valer Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 2001. p. 23. Spurgeon fala de Resolução e Dependência. Aqui preferimos o termo “determinação” em vez de “resolução”. 

[2] PEIRCE, C. S. Ideais of conduct. Trad. e introd. de Ivo Assad Ibri. Trans/Form/Ação, São Paulo, 8:79-95, 1985. 

[3] GOLDINGAY, John. Baker commentary on the Old Testament: wisdom and psalms. Michigan: Baker Academic, 2013. 

[4] CALVINO, João. Salmos. Vol. 4. Trad. Valer Graciano Martins. São Paulo: Editora Fiel, 2013. (Ebook). 

[5] GOLDINGAY, 2013. 

[6] CALVINO, 2013. 

[7] BARNES, Albert. Notes on the Whole Bible. Disponível em: <www.studylight.org/commentaries/bnb/psalms-119.html>. Acesso em: 02 abr. 18.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Reflexões no Salmo 119

DA ORAÇÃO AO LOUVOR 

Com um coração sincero eu te louvarei à medida que for aprendendo os teus justos ensinamentos. (Sl 119.7, NHTL) 

Eu vou confessar-Te com retidão de coração enquanto aprendo tuas decisões fiéis. (Tradução de GOLDINGAY). 

Confessar nem sempre significa confessar pecados. No texto bíblico há três sentidos básicos ligados à raiz dessa palavra. Primeiro, era empregada para indicar o reconhecimento ou a confissão de pecados, tanto no âmbito individual quanto nacional. Segundo, usava-se para expressar a confissão pública dos atributos e obras de Deus. Terceiro, indicava, também, o louvor de um ser humano por outro. Assim, com relação a Deus, “louvor é uma confissão ou afirmação de quem Deus é e do que faz”[1]. Desse modo, aliando à sua oração o louvor (NVI) ou confissão (GOLDINGAY) ou ação de graças (ARA), o salmista reconhece que o Senhor tem sido benevolente com ele. Testemunha à comunidade da aliança que obedecer ao Senhor é o caminho da prosperidade e honra. Da oração ao louvor, ou o louvor na oração, ou, ainda, a oração com louvor, seja como for, temos aqui o reconhecimento que somo o que somos pela graça maravilhosa de Deus, que é o centro da nossa adoração. 

Para facilitar nossa compreensão do versículo façamos as seguintes perguntas: Confessar a quem? Confessar o que? Confessar com que atitude? Confessar com qual disposição? Primeiramente, o salmista confessa ao Senhor. Nos Salmos, o reconhecimento do que Deus é passa pela contemplação daquilo que Ele faz. São duas coisas que vão juntas (por exemplo, ver os Salmos 112 e 150). O que ele confessa aqui, ao contemplar sua própria vida à luz daquilo que Deus tem feito nele e através dele, portanto, é a benevolência do Deus da aliança, que manifesta suas obras na vida do seu povo e daquele que lhe é obediente. 

A atitude com que o faz é digna de nota. Ele louva a Deus de modo sincero e íntegro. Seu coração, que é o centro das emoções, volições e pensamentos, está cheio da lei de Deus, que atua nele como um purgante. Se a fonte está limpa, é claro que ela vai jorrar água limpa. Se a fonte do comportamento é o coração, não poderíamos esperar de alguém cuja vida está limpa pela Palavra outra coisa que um louvor sincero, efusivo e efetivo. 

Por fim, o salmista apresenta uma disposição lúcida ao aprendizado. O seu coração não está cheio apenas de sinceridade, mas também de humildade. Albert Barnes expressou isso reconhecendo que “quanto mais conhecemos a Deus, mais nós veremos nele para louvar. Quanto maior o nosso conhecimento e experiência, mais nossos corações estarão dispostos a ampliar seu Nome. Esta observação deve se estender a tudo o que há em Deus para ser aprendido; e como isso é infinito, então haverá ocasião para louvores renovados e mais elevados para toda a eternidade”[2]

Conhecer a Deus passa necessariamente pelo o que Ele disse sobre si mesmo. Os justos juízos de Deus, que o salmista quer aprender mais e mais, são aquelas "jurisprudências" que constituem a base do sistema jurídico de Israel. No Salmo 119, a palavra "leis" geralmente denota a revelação dada pelo Juiz Supremo, o próprio Deus. Ele é o Grande Juiz, e os veredictos proferidos por ele são autoritativos. Por isso, a consequência natural é que “temos que ouvir e aprender a descobrir as decisões autorizadas que o Senhor fez sobre a vida que expõe a natureza da vida fiel em relação a Deus e ao outro”[3]. Nos guiamos na vida pelo GPS da vontade de Deus. 

Que confessemos com entusiasmo o que Deus é e o que ele faz. Que reconheçamos que somos o que somos pela sua graça. Que humildemente procuremos conhecer a sua vontade revelada na sua santa Palavra, nossa única regra de conduta e fé. Que nos alegremos por saber que “esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3, NVI). "Quem se gloriar, glorie-se no Senhor" (1 Co 1.31, NVI). 

Referências Bibliográficas

1 ARCHER JR. Gleason L.; HARRIS, R. Laird; WALTKE. Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. pp. 593-6. 

[2] BARNES, Albert. Notes on the Whole Bible. Disponível em: www.studylight.org/commentaries/bnb/psalms-119.html. Acesso em: 21 mar. 18. 

[3] GOLDINGAY, John. Baker commentary on the Old Testament: wisdom and psalms. Michigan: Baker Academic, 2013.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Reflexões no Salmo 119



COMPROMISSO TOTAL COM A PALAVRA DE DEUS 

Felizes aqueles que se esforçam para obedecer de todo o coração à vontade revelada de Deus; sem dúvida alguma, eles não praticam injustiças e andam sempre pelo caminho do Senhor. Sl 119:2-3. (BÍBLIA VIVA)

            

A segunda bem aventurança é um desdobramento da primeira, construída a partir do paralelismo característico da poesia hebraica. Aqui, a fonte do comportamento é declarada. A dialética do exterior e interior é afirmada. O comportamento sem atitude não seria suficiente. A atitude sem comportamento não seria suficiente. Na verdade, o salmo assume que não se pode ter um comportamento caracterizado pela integridade sem a atitude correta do coração; e não se pode ter a atitude correta do coração sem que isso seja expresso externamente. 

Integridade é estar inteiro, uno, no esforço de seguir o ensinamento do Senhor. O contrário disso seria hipocrisia, que é um estado de espírito e vida em que uma aparência externa da verdade ou da retidão encobre a mentira ou a maldade escondida. Por isso Jesus disse que o que contamina o homem não é o que entra, mas o que sai, pois a boca fala do que o coração está cheio. Do bom tesouro do nosso coração tiramos coisas boas ou más. Essa é a razão porque de tudo o que se deve guardar devemos montar guarda no nosso coração, já que dele procedem as saídas da vida. 

Em outras palavras, é feliz aquele ou aquela que se esforça por ter um compromisso total, incondicional com a Palavra de Deus. Que a utiliza como guia nos atos da vida cotidiana, onde temos que enfrentar os desafios de aplicar a lei de Deus a situações embaraçosas. É claro que isso não significa que o crente não peca mais. O salmista não está dizendo que somos perfeitos. João nos lembra que aquele que diz que não tem pecado é mentiroso. O que se afirma é o compromisso com a verdade revelada de Deus, a humilde submissão aos seus mandamentos. Portanto, que o nosso compromisso com a Palavra de Deus seja total. 

Jânio da Cunha Bastos

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Reflexões no Salmo 119


A PALAVRA DE DEUS COMO CAMINHO PARA A FELICIDADE
Sl 119:1 Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do Senhor! (NVI)



Do ponto de vista humano, a felicidade é um conceito cujas acepções mudam conforme os tempos e lugares. Geralmente é um conceito vinculado à ética. Por isso, a felicidade é irremediavelmente o produto dos valores de uma sociedade, que estabelece para si ideais que julga valer a pena perseguir. Do ponto de vista bíblico, “a felicidade é sempre o produto secundário de um valor maior”. Ou seja, a Bíblia nunca diz que a felicidade deve ser buscada como um valor em si mesmo. Ela é um resultado, não um fim. Aqueles que buscam a felicidade pela felicidade acabam encontrando a frustração.

Desse modo, a pergunta que o Salmo 119:1-2 põe a nós é: Quais os valores maiores que trazem consigo a felicidade? A resposta pode ser dada pela paráfrase de Spurgeon do verso 1. “Bem-aventurado é o homem cuja vida é a transcrição prática da vontade de Deus”. Para o salmista, a vida feliz é aquela que reconhece que Deus é Deus, e que ele tem revelado a sua vontade a nós na sua santa lei. Aqueles que suspiram por Deus, também suspiram por sua palavra. Se amamos a Deus, obedeceremos os seus mandamentos. Não obedecemos a lei de Deus para obtermos a aceitação dEle, porque isso nos é impossível. Nós a obedecemos porque queremos agradar a Ele, o amado de nossa alma.

Portanto, a felicidade vem àqueles que conformam as suas vidas a justa lei de Deus, que a tomam como seu guia, como seu contentamento, como seu ideal de conduta, como horizonte no caminho da vida. Que Deus nos conceda graça para cumprirmos a sua vontade.
Jânio da Cunha Bastos

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