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sexta-feira, 17 de julho de 2015

CRISTO E SUA CRUZ

Por John Stott

O evangelho é boa nova de libertação. Foi este o tema do último capítulo. Mas isto, por si mesmo, é uma ênfase unilateral, pois o que o evangelho anuncia, de acordo com o Novo Testamento, não é só o que Cristo oferece às pessoas hoje, mas o que ele fez um dia para possibilitar essa oferta. O evangelho dos apóstolos con­cilia o passado com o presente, o "outrora" com o agora, o evento histórico com a experiência contemporânea. Ele declara não somente que Jesus salva, mas também que, para fazê-lo, ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou da morte. Se se proclamar o poder salvador, omitindo os eventos salvíficos, especialmente a cruz, então o que se pregou não foi o evangelho.

Neste capítulo iremos refletir sobre uma das maiores declarações de Paulo acerca da origem, conteúdo e poder do evangelho, e particularmente acerca da centralidade da cruz de Cristo.

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de lin­guagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demons­tração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus.[1]

Neste texto, essencialmente trinitário, destacam-se três grandes lições acerca da evangelização. Elas têm a ver com a Palavra de Deus, a cruz de Cristo e o poder do Espírito.

A Palavra de Deus

O evangelho é a verdade proveniente de Deus. Segundo Paulo, o que ele proclamou aos coríntios não foi "osten­tação de linguagem", ou seja, sabedoria humana ou a sabedoria do mundo,[2] mas a palavra de Deus ou a sabedoria de Deus, que aqui ele chama de "testemunho" (martyrion) ou "mistério" (mysterion). As palavras gregas são simi­lares e a evidência do manuscrito entre elas é perfeitamente equilibrada. Além do mais, ambas ocorrem dentro dos dois primeiros capítulos desta carta: martyrion pode ter relação com 1.6, enquanto que mysterion pode estar relacionada com 2.7. Qualquer que seja a leitura correta, o sentido é o mesmo, isto é, que a mensagem de Paulo veio de Deus. Se a palavra correta é "testemunho", então significa "a verdade confirmada de Deus"; se o certo é "mistério", então é "a verdade secreta de Deus" (BLH). Em todo caso, o evangelho do apóstolo é a verdade de Deus.

É aqui que deve começar toda evangelização de verdade. Nós não inventamos nossa mensagem. Não abordamos as pessoas com nossas próprias especulações humanas. Somos, isto sim, portadores da Palavra de Deus, encarregados do evangelho de Deus, mordomos dos segredos revelados de Deus.

Além disso, o que Paulo transmitia era compatível com sua mensagem. Ele não foi até os coríntios com "ostentação de linguagem" nem com "sabedoria" (versículo 1). Quanto ao conteúdo, ele abriu mão da orgulhosa sabedoria huma­na, submetendo-se humildemente, ao invés disso, à palavra de Deus acerca de Cristo (versículo 2). Quanto à mensagem, ele abriu mão da orgulhosa retórica humana para basear-se humildemente no poder do Espírito Santo (versículos 3 a 5). Como diz C. H. Hodge em seu comentário, ele não veio "nem como retórico nem como filósofo".[3]

Por favor, não me interpretem mal. Não existe aqui nenhuma tentativa de justificar um evangelho sem con­teúdo, nem tampouco um estilo sem forma. O que Paulo está abdicando aqui não é uma substância doutrinária, nem um argumento racional, mas somente a sabedoria e a retórica do mundo. Nós sabemos disso porque Lucas nos conta em Atos 18, como foi o ministério evangelístico do apóstolo em Corinto. Primeiro ele "discorria na sinagoga" todo sábado, "persuadindo tanto judeus como gregos" (versículo 4). Daí ele passou dezoito meses "ensinando entre eles a palavra de Deus" (versículo 11). Por isso ele pôde levar adiante o seu ministério de ensino em Corinto tentando "persuadir" as pessoas.[4] Ele não somente ensi­nava a verdade às pessoas, mas também convencia-as da verdade.

Portanto, quando convidamos as pessoas a aceitarem a Cristo, não temos nenhum direito de fechar, endurecer ou anular a mente delas. De maneira nenhuma. Deus as criou como seres racionais e espera que usem o seu raciocínio. Para dizer a verdade, elas nunca haverão de crer, a não ser que o Espírito as ilumine. Sem isso, todo argumento será infrutífero. "Mas", escreve Gresham Machen, "só porque o argumento é insuficiente, isto não significa que ele seja desnecessário. O que o Espírito Santo faz no novo nascimento não é tornar cristã uma pessoa, independente das evidências, mas, sim, dissipar a neblina dos seus olhos e capacitá-la a atentar para essas evidências."[5]

Assim, o evangelho é a verdade que vem de Deus e foi confiada a nós. Nossa responsabilidade é apresentá-la da forma mais clara, coerente e convincente possível e, assim como os apóstolos, argumentá-la com a maior persuasão possível. E em todo o tempo, ao fazê-lo, estaremos con­fiando que o Santo Espírito da verdade haverá de dissipar a ignorância das pessoas, superar seus preconceitos e convencê-las acerca de Cristo.

A cruz de Cristo

Chegamos agora ao versículo 2: "Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado." Tem gente que lê isto de forma errada, como se Paulo tivesse escrito "senão Jesus Cristo crucificado"; a conclusão é, então, que o seu único tema era a cruz. Mas o que Paulo escreveu mesmo (e que é coerente com a descrição de Lucas em Atos acerca de sua obra evangelística) foi que ele decidiu nada saber "senão Jesus Cristo" (sua mensagem centra­lizava-se neste) "e (especialmente, embora não exclusiva­mente) este crucificado". E o que dizer, então, sobre a ressurreição de Cristo? Esta com certeza tinha um lugar de grande importância na pregação dos apóstolos. Mas eles a entendiam e proclamavam, não como um evento isolado e independente, mas em relação com a cruz. Afinal de contas, a ressurreição não foi apenas uma sequela da morte de Jesus; ela foi a reversão da opinião humana a respeito dele e a vindicação pública do propósito divino na sua morte.

Agora dá para ver que Paulo, antes de chegar a Corinto, tomou a decisão de concentrar sua pregação em Cristo, e especialmente na cruz. Eu "decidi" (ERAB), escreveu ele, "me propus" (ERC), "resolvi" (BLH) fazê-lo. É esta decisão que precisamos analisar: por que ele precisou tomá-la?

A interpretação popular da situação é bem conhecida. Paulo chegou a Corinto vindo de Atenas. Seu sermão para os filósofos atenienses (diz a teoria) tinha sido um fiasco. Além de ter sido muito intelectual, Paulo não havia pregado o evangelho. Em vez de concentrar-se na cruz, tinha enfocado a criação. O resultado é que não houve nenhuma conversão. Assim, em seu caminho para Corinto, Paulo arrependeu-se do evangelho distorcido que havia pregado em Atenas e resolveu que, em Corinto, limitaria sua mensagem à cruz.

Eu confesso que a primeira vez que ouvi essa teoria, há muitos anos, ela me desceu goela abaixo com isca, anzol e tudo. Mas depois eu tive que rejeitá-la, pois vi que ela não resiste a uma análise mais profunda. Primeiro, porque a missão de Paulo em Atenas não foi um fracasso. Pelo contrário, "houve alguns homens que se agregaram a ele, e creram; entre eles estavam Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dámaris e com eles outros mais".[6]Segundo, Lucas, em sua narrativa de Atos, não dá qualquer indício de que ele acha que o sermão de Paulo foi um equívoco; pelo contrário, ele o registra como um modelo da pregação dos apóstolos para os intelectuais gentios. Terceiro, é quase certo que Paulo pregou, sim, a cruz em Atenas, já que ele proclamou "Jesus e a ressurreição",[7] e não se pode pregar a ressurreição sem a morte que a precedeu. A verdade é que, por causa do seu público, composto de gentios, Paulo aproveitou a situação e começou com a idolatria e a criação, ao invés da Escritura veterotesta­mentária. Mas ele não parou ali. O sermão que Lucas registra deve ter durado apenas uns dois minutos; portan­to, Paulo deve ter elaborado consideravelmente esse esbo­ço. Quarto, Paulo não mudou realmente sua tática em Corinto. Assim como em Atenas, também em Corinto Lucas o descreve ainda argumentando, ensinando e persuadindo.[8] Mas, então, qual foi a decisão de Paulo? Por trás de toda resolução existe alguma indecisão anterior, uma situação em que varias opiniões se apresentam e nós somos obri­gados a escolher, optar por uma delas em detrimento das outras. É evidente, pois, que por detrás da decisão de Paulo de pregar somente a Cristo, e especialmente a cruz, jazia uma alternativa, ou mesmo uma tentação, ou de pregar a Cristo sem a cruz, ou de deixar definitivamente de anunciar a Cristo, pregando, ao invés disso, a sabedoria do mundo. Mas, então, por que isto teria sido uma tentação para Paulo enquanto ele viajava de Atenas para Corinto? Com toda certeza não foi por causa do seu suposto fracasso em Atenas, mas, sim, pelo temor da recepção que o aguardava em Corinto. Mas quem eram esses coríntios, para que Paulo estivesse tão intimidado e tão apreensivo ao abordá-los ("em fraqueza, temor e grande tremor", v. 3), e em relação aos quais ele deve ter achado necessário tomar uma firme resolução?

Ao indagarmos e respondermos estas questões, iremos desvendar também as principais objeções que se fazem hoje à mensagem de Cristo e sua cruz. Ou melhor, veremos por que nós mesmos precisamos tomar essa decisão hoje.

(a) A objeção intelectual, ou a loucura da cruz. Paulo já havia se deparado com desprezo intelectual em Atenas. Os filósofos o haviam insultado, chamando-o de spermologos, ou "apanhador de grãos". Esta palavra era aplicada literalmente a aves de rapina, e, por extensão, aos vagabundos que se alimentavam de restos de comida encontrados nas sarjetas. Metaforicamente, referia-se a mestres que se alimentavam apenas de idéias copiadas dos outros. Os atenienses veneravam a originalidade[9] e des­prezavam tudo que fosse retrógrado e obsoleto.

Os filósofos escarneceram quando foi mencionada a res­surreição.[10] Eles "zombaram dele" (BLH). Eu acho que isto significa que eles caíram na gargalhada. Como é que eles reagiram quando Paulo pregou sobre a cruz, isso Lucas não diz. Mas Paulo viu que ela era "escândalo para os judeus, loucura para os gentios".[11] Para o judeu incrédulo era inconcebível que o Messias devesse morrer "em ma­deiro", ou seja, sob a maldição de Deus.[12] Para o gentio incrédulo era ridículo imaginar que um deus, um dos imortais, morresse. Celso, o cínico do século II d.C, criticou os cristãos com o maior sarcasmo por causa disso. Con­forme Orígenes, ele achava que "ao adorarmos aquele que [como ele diz] foi feito prisioneiro e levado à morte, nós estamos agindo como" os outros, que na verdade adoravam os mortos.[13]

Corinto não havia escapado à arrogância intelectual de Atenas. Estas cidades distavam apenas cinquenta milhas uma da outra. A primeira Epístola de Paulo aos Coríntios evidencia muito claramente que o orgulho intelectual era um dos principais pecados da igreja em Corinto. Foi este o contexto em que Paulo tomou sua decisão de abrir mão da sabedoria do mundo em favor da "loucura da cruz". O que o aguardava era zombaria e escárnio. Mas ele sabia que "a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens".[14] Ainda hoje a mensagem da cruz é profun­damente desprezada. A doutrina bíblica evangélica da ex­piação de Jesus (que diz ter Cristo padecido em nosso lugar, como nosso substituto, a morte que merecíamos morrer) é rejeitada e até ridicularizada. É considerada "primitiva", "retórica", "injusta", "imoral" e "bárbara". A. J. Ayer chamou as doutrinas relacionadas ao pecado e à expiação de "intelectualmente desprezíveis e moralmente ultrajan­tes".[15] E um teólogo liberal contemporâneo descreveu aspectos da minha própria apresentação em A Cruz de Cristo como sendo "indefensáveis", "ininteligíveis", "não só inexplicáveis mas também incompreensíveis" e, portan­to, "incomunicáveis". Como é que devemos responder a essa bateria de epítetos negativos? Não negamos que certas formulações evangélicas têm sido desequilibradas e não-bíblicas. Sempre que relegamos Jesus Cristo ao papel de uma terceira pessoa, que interveio para nos resgatar de um Deus irado, fazemos dele uma caricatura ridícula e sujeita a condenação, já que Deus é quem amou o mundo e foi Deus quem tomou a iniciativa de enviar seu Filho para morrer por nós. Só que a iniciativa que ele tomou levou Cristo a ser "feito pecado" e "feito maldição" por nós,[16] e tal linguagem geralmente produz uma hostilidade extre­mamente emocional. Daí a tentação de retocar o evangelho do Cristo crucificado, de eliminar seus aspectos que causam mais objeções e de tentar adaptá-lo ao gosto dos sensíveis paladares modernos. Não é de admirar que o apóstolo pareça quase violento ao expressar sua decisão de "saber somente a Jesus Cristo", e especialmente a sua cruz. Ele teve de optar entre fidelidade e popularidade.

(b) A objeção religiosa, ou a exclusividade do evangelho. 

Se Paulo achou Atenas "cheia de ídolos"[17] é pouco provável que ele tenha achado os coríntios menos idólatras. Sabe-se que a cidade de Corinto tinha pelo menos duas dúzias de templos, cada um dedicado a uma divindade diferente. Ainda hoje existem remanescentes do antigo templo de Apolo, sete pilares maciços erguidos entre as ruínas de Corinto. E, por detrás da cidade, uns 2000 pés acima, ergue-se a rochosa Acrocorinto, onde existiu um dia o templo de Afrodite. Portanto, os coríntios, tal como os atenienses, eram "acentuadamente religiosos".[18] Eles adoravam muitos deuses, que toleravam uns aos outros em amigável co­existência.

Os coríntios não teriam criado tanta objeção caso os evangelistas cristãos se tivessem contentado em acrescen­tar Jesus ao seu já tão rico panteão. Só que o apóstolo Paulo, ao visitar a cidade, tinha em vista um objetivo muito diferente. Ele queria que Corinto, com todos os seus ha­bitantes e todos os seus deuses, se curvasse e adorasse Jesus. Ele chegou ali com a firme intenção de nada saber "senão Jesus Cristo, e este crucificado". Ele sabia muito bem, como lhes escreveu mais tarde, que havia "muitos 'deuses' e muitos 'senhores'" que disputavam a lealdade dos coríntios. Mas, para ele, havia "um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também por ele";[19] portanto, não estava disposto a se comprometer. Na opinião dele, a sua visita teria estabe­lecido um compromisso de casamento entre eles e Cristo; portanto, sentia por eles um zelo santo. "Eu vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo", escreveu ele. "Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo."[20] Afinal de contas, Jesus Cristo não iria dividir sua glória com Apolo ou Afrodite, ou qualquer outro que fosse.

A situação religiosa do mundo não mudou muito desde aqueles dias. E verdade que os velhos deuses da Grécia e de Roma já foram desacreditados e descartados há muito tempo. Mas em lugar deles surgiram novos deuses, assim como ressurgiram outras crenças antigas. Um dos resul­tados dos meios modernos de comunicação e da facilidade de viajar é que muitos países vêm se tornando cada vez mais pluralistas. O que as pessoas querem é um sincretismo fácil, uma trégua para a competição interreligiosa, uma mistura do que há de melhor em todas as religiões. Mas nós, cristãos, não podemos abrir mão, nem da supremacia, nem da unicidade de Jesus Cristo. Simplesmente não existe ninguém que seja igual a ele; sua encarnação, sua redenção e ressurreição não têm paralelos. Portanto, ele é o Media­dor — aliás, o único — entre Deus e a raça humana.[21] Esta afirmação da exclusividade de Jesus tem produzido ressen­timentos amargos e profundos. Muitos a consideram "in­toleravelmente intolerante". Mas, por amor à verdade, nós temos que mantê-la, por mais ofensa que possa causar. Este tópico eu volto a considerar no capítulo 18.

(c) A objeção pessoal, ou a humilhação do orgulho hu­mano. Todas as religiões, com exceção do cristianismo, têm em comum a arrogante idéia (expressa de diferentes ma­neiras) de que nós somos capazes, se não de conquistar a nossa salvação, pelo menos de contribuir substancialmente para ela. Essa doutrina da salvação própria engorda mui­tíssimo a nossa auto-estima. Ela agrada ao nosso orgu­lhoso ego e salva-nos do supremo embaraço de sermos humilhados diante da cruz.

Os coríntios não eram uma exceção; eles eram um povo orgulhoso. Tinham orgulho de sua cidade, a qual, após ter sido destruída um século antes em uma rebelião, fora caprichosamente reconstruída por Júlio César em 46 a.C. Orgulhavam-se do fato de que Augusto havia elevado Co­rinto acima de Atenas, tornando-a a capital da nova província da Acaia. Tinham orgulho do seu comércio, da sua afluência, da sua cultura, dos seus, jogos típicos e do seu zelo religioso.

Aí apareceu aquele missionário cristão afobado, um joão-ninguém metido a importante, um camaradinha feio e careca, de pernas tortas e sobrancelhas cerradas, que parecia não ter o mínimo respeito pela distinta cidade deles. E tinha a petulância de dizer a eles que nem sua sabedoria, nem sua opulência, nem sua religião poderiam salvá-los; que na verdade eles nem podiam fazer coisa alguma para salvar -se do juízo de Deus, e nem sequer ajudar a conquistar a sua própria salvação; que por isso é que Jesus Cristo havia morrido por eles; e que, sem ele, todos eles iriam perecer. Quem ele achava que era para insultá-los desse jeito?! Era humilhação demais para um povo tão orgulhoso! A men­sagem da cruz era uma pedra de tropeço, tanto para or­gulhosos judeus quanto para gentios orgulhosos. Não é de admirar que a principal resposta ao evangelho em Corinto tenha vindo dos mais baixos escalões da sociedade: "Ir­mãos, reparai na vossa vocação... não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento." Pelo contrário, foram os loucos, os fracos, os humildes e os desprezados, que sabiam que nada tinham a oferecer, que Deus escolheu e chamou.[22]

Ainda hoje não existe uma coisa que leve tanta gente a abdicar do reino de Deus quanto o orgulho. Como disse Emil Brunner, em todas as outras religiões "o homem é poupado da suprema humilhação de saber que o Mediador (no caso, Jesus Cristo) deve sofrer a punição em seu lugar... Elas não o deixam absolutamente despido."[23] O evangelho, porém, nos desnuda (não temos nenhuma roupa com que nos apresentar diante de Deus) e nos declara falidos (não temos dinheiro algum com o qual comprar o favor dos céus).

(d) A objeção moral, ou o chamado ao arrependimento e à santidade. Corinto era um próspero centro comercial, que comandava as rotas de negócios, tanto no sentido norte-sul por via terrestre como leste-oeste através do mar.

A cidade, portanto, vivia cheia de mercadores, viajantes e navegadores. Já que eram estrangeiros numa cidade estranha, eles pouco se preocupavam com restrições morais. Alem disso, Afrodite, conhecida pelos romanos como Vênus, a deusa do amor, reinava em seu templo acima da cidade, encorajava a promiscuidade sexual entre os seus devotos e proporcionava milhares de prostitutas que vagavam à noite pelas ruas da cidade. Era uma verdadeira "feira da vaidade" do mundo antigo. O verbo grego korinthiazomai significava "praticar a imoralidade".

De uma cidade descaradamente imoral como Corinto não era mesmo de se esperar que acolhesse o evangelho, com seus apelos ao arrependimento, suas advertências de que os sexualmente corruptos não herdarão o reino de Deus[24] e com sua insistência no fato de que após a justificação vem a santificação (crescer em santidade) e depois da santificação vem a glorificação (quando o mal será abolido).

O mundo moderno não é em nada mais receptivo do que o mundo antigo no que concerne ao chamado do evangelho para o domínio próprio. Ele gosta de dizer que esse negócio de absolutos morais já não existe mais, que moralidade sexual é apenas uma questão de costumes sexuais, que a abstinência é uma coisa ruim e a permissividade uma coisa boa, e que o cristianismo, com suas proibições, é inimigo da liberdade.

(e) A objeção política, ou o senhorio de Jesus Cristo. Havia no Império Romano uma boa dose de fervor político (para não dizer fanatismo). Leais procuradores romanos tendiam a incentivá-lo e agiam com toda crueldade para acalmar qualquer tentativa de rebelião. Convém lembrar­mos que o próprio Jesus foi condenado numa corte romana pela ofensa política da sedição, por declarar ser um rei, em rivalidade a César. Paulo e Silas, de igual forma, foram acusados em Filipos de estarem "propagando costumes que não podemos receber nem praticar porque somos roma­nos",[25] enquanto que em Tessalônica disseram que eles estavam "procedendo contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei".[26]

Eram falsas ou verdadeiras essas acusações? Eram falsas e eram verdadeiras. Naturalmente, nem Jesus nem os apóstolos jamais instigaram rebelião armada contra Roma. Eles não eram zelotas. Mas eles proclamaram, sim, que Jesus havia anunciado ter chegado o reino de Deus, que seu reino tinha prioridade sobre todas as outras lealdades, menos importantes, que esse reino se espalharia pelo mundo todo e que o rei iria voltar para assumir o poder e o reino. Tinha todo o jeito de sedição. Na verdade, era sedição, se é que sedição significa negar ao estado autoridade incon­testável, dando-a ao Cristo de Deus.

Ainda hoje, se há uma coisa que um regime totalitário não consegue suportar é que lhe neguem a lealdade absoluta que ele exige. Os cristãos submetem-se conscientemente ao estado, desde que a autoridade que lhe é dada por Deus seja usada para promover o bem e punir o mal; nunca, porém, iremos adorar o estado. E a Cristo que nós adoramos, a Cristo, a quem foi dada toda a autoridade no céu e na terra, pois ele morreu e ressuscitou a fim de ser o Senhor de tudo.

Eis aqui, pois, cinco objeções que se costumam fazer ao evangelho de Cristo e sua cruz, e que Paulo esperava encontrar em Corinto. Ele sabia que sua mensagem do Cristo crucificado seria considerada intelectualmente loucura (incompatível com a sabedoria), religiosamente exclusiva (incompatível com a tolerância), pessoalmente humilhante (incompatível com a auto-estima), moralmen­te exigente (incompatível com a liberdade) e politicamente subversiva (incompatível com o patriotismo).

Não é de admirar que Paulo se sentisse "fraco e tremendo de medo"[27] e admitisse que precisava tomar uma decisão. Foi, por um lado, uma decisão negativa, de abrir mão da sabedoria do mundo, ou seja, de todo sistema que se oferece como uma alternativa para o evangelho; e, por outro lado, foi uma decisão positiva, de só proclamar Jesus Cristo e especialmente sua cruz. Hoje nós nos deparamos com a mesma alternativa. Temos que escolher entre a sabedoria do inundo, que é loucura para Deus, e a loucura da cruz, que é a sabedoria de Deus.

O poder do Espírito

Certos cristãos contemporâneos, se ouvissem Paulo con­fessar que sentia fraqueza, temor e tremor, com certeza iriam repreendê-lo. "Paulo", diriam eles, "você não tem nada que ficar nervoso ou com medo. Anime-se! Você não sabe o que é ser cheio do Espírito Santo? Você tem que ser forte, ousado e corajoso!"

Mas Paulo não temia admitir que estava com medo. Para dizer a verdade, ele tinha um poderoso intelecto e uma forte personalidade, e esses poderes ele havia dedicado a Cristo. Mas ele era também fisicamente fraco e emocionalmente vulnerável. Segundo a tradição, sua aparência não era nada atraente. Conforme os seus críticos, suas cartas eram "graves e fortes; mas a presença pessoal dele era fraca, e a palavra desprezível".[28] Portanto, ele nada tinha que chamasse aten­ção, fosse para vê-lo, fosse para escutá-lo. Além disso, algum tipo de enfermidade (o seu chamado "espinho na carne"[29]) parece ter afetado sua visão, ou mesmo desfigurado-o.[30] E ele sabia da impopularidade do seu evangelho, da oposição que se levantaria em Corinto e, portanto, do custo de ser fiel a ele.

Mas, então, em que ele depositou a sua confiança? Ele nos dá a resposta em 1 Coríntios 2.4-5. Sua confiança não estava em "linguagem persuasiva de sabedoria" (ERAB) ou em "linguagem de sabedoria humana" (BLH). Isto é, ele não se baseava, nem na sabedoria nem na eloquência do mundo. Ao invés da sabedoria do mundo ele pregava a Cristo e sua cruz (v. 1-2), e em vez da retórica do mundo ele confiava na poderosa demonstração que o Espírito Santo dá à palavra. Afinal, somente o Espírito Santo pode convencer as pessoas dos seus pecados e necessidades, abrir-lhes os olhos para enxergarem a verdade do Cristo crucificado, dobrar sua orgulhosa vontade e submetê-las a ele, libertá-las a fim de crerem nele, e dar-lhes um novo nascimento. Esta é a poderosa "demonstração" que o Espírito Santo dá a palavras ditas em fraqueza humana.

Esta questão do "poder através da fraqueza" é um ele­mento vital na correspondência corintiana de Paulo. Em ambas as cartas existentes o apóstolo enfatiza que é através da fraqueza humana que melhor opera o poder divino. Ele insinua que Deus, deliberadamente, torna fraco o seu povo e o mantém assim, a fim de mostrar que o poder é dele.[31] Paulo chega até a dizer que este princípio se aplica tanto a Deus quanto a nós, pois é através da sua própria fraqueza na cruz que ele manifesta o seu poder de salvar.

Em 1 Coríntios 1 e 2 o mesmo tema do poder através da fraqueza se repete em três variações. Primeiro, nossa mensagem é fraca e louca (Cristo e a cruz). Segundo, ela é proclamada por pregadores fracos e loucos. Terceiro, ela é acolhida por pessoas fracas e loucas. Assim, Deus esco­lheu um instrumento fraco (Paulo) para levar uma men­sagem fraca (a cruz) a pessoas fracas (os operários de Corinto). Por quê? "A fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus" e para que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor".[32]

Os cinco primeiros versículos de 1 Coríntios 2 são talvez a mais nobre e mais preciosa declaração feita no Novo Testamento sobre a evangelização. Eles nos dizem que o evangelho é a verdade proveniente de Deus acerca de Cristo e sua cruz no poder do Espírito. Assim, o evangelho não é especulação humana, mas, sim, revelação divina; não é sabedoria popular, mas Cristo e sua desprezada cruz; não é imposto através de propagandas ou personalidades, mas é transmitido pelo Espírito Santo. O evangelho vem de Deus, concentra-se em Cristo, e este crucificado, e é au­tenticado pelo Espírito Santo. É este é o evangelho trinitário do Novo Testamento.

Fonte: Stott, John. Ouça o Espírito, ouça o mundo. São Paulo: ABU Editora, 2005.


[1] 1 Co 2.1-5.
[2] 1 Co 1.20-21
[3] C. H. Hodge, The First Epistle to the Corinthians (1857; Banner of Truth, 1959), p. 29
[4] 2 Co 5.11; cf. At 18.13
[5] J. Gresham Machen, The Christicm Failli in the Modem World (1936; Eerdmans,
1947), p. 63
[6] At 17.34
[7] At 17.18
[8] Para uma refutação mais completa a esta interpretação popular, ver meu livro A
Mensagem de Atos (ABU, 1994), pp. 324-326
[9] At 17.18, 21
[10] At 17.32
[11] 1 Co 1.23
[12] G1 3.13
[13] Orígenes, Against Celsus, III. 34
[14] 1 Co 1.25
[15] The Guardian Weekly, 30/08/79
[16] 2 Co 5.21; Gl 3.13
[17] At 17.16
[18] At 17.22
[19] 1 Co 8.5-6
[20] 2 Co 11.2-3
[21] 1 Tm 2.5
[22] 1 Co 1.26-29
[23] Emil Brunner, The Mediator (1927; Westminster, 1947), p. 474
[24] ICo 6.9-10
[25] At 16.21
[26] At 17.7
[27] 1 Co 2.3 (BLH)
[28] 2 Co 10.10
[29] 2 Co 12.7
[30] Por exemplo, em Gl 4.13-14
[31] Ver hina ("a fim de que") em 2 Co 4.7 e 12.9-10
[32] 1 Co 1.29-31

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A VERDADEIRA LIBERDADE

POR JOHN STOTT 

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evan­gelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.

Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atra­ente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liber­dade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, reli­giosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemen­te pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (naci­onal, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.

Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título "Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis", Daniel Halpern perguntou-lhe: "Existe al­gum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?" "Sim", respondeu John Fowles. "Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.

Todos os meus livros falam sobre isso."[1]

Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. "O Espírito do Senhor está sobre mim", declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, "pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor."[2] Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em vee­mente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de "liberdade" ou "libertação". Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres".[3] E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão".[4] Para aqueles que consideram "salvação" um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, "liberdade" é um excelente subs­tituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.

Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpre­tada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. "Quando nós conseguirmos a liberdade", exclamava ele, "todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali", disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.

"Eu prefiro meu cigarro de palha", gritou um gozador.

"Quando formos libertados", continuou o marxista, ig­norando a interrupção e esquentando mais o assunto, "todos vocês poderão andar num carro daqueles", e apon­tou para um suntuoso Mercedes que ia passando.

"Eu prefiro minha bicicleta", gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não supor­tando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: "Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe man­darem!"


Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que iden­tificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreen­der como é que Cristo pode nos libertar.

Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicote­rapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o "pecado" como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obri­gações como seres humanos, como a nossa falha ao dei­xarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, "o homem é o único animal que fica envergonhado - ou que precisa fazê-lo".[5]

Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado "esconder". Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: "O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar."

"Mas", como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, "em Deus está o perdão",[6] pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.

A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma in­tensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, "Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real - nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado... Eu estava incrivelmente feliz!"

Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: "Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."

Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de liber­tação? "Somos descendência de Abraão", eles retrucaram, "e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?"

Jesus replicou: "Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado."[7]

Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como "salvação", "pecado" é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. "Eu não sou pecador", diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensa­cionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas "pecado" tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim des­cobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com "pecado" é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamen­tos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclaman­do nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.

O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente "ego" ou "auto". Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, auto-afirmação, auto-acusação, auto-agressão, autopiedade, auto-comiseração, autodestruição, auto-indulgência, auto­promoção, autopunição, auto-suficiência...

Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do "calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu". E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absor­ver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.

Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer "o poder da sua ressurreição".[8] Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.

Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia ate­morizado pelos poderes que, conforme se acreditava, ha­bitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos ma­lignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar... É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supers­ticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opi­niões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que lêem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que lêem a Bíblia.

Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto "debaixo de seus pés".[9] Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.

Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. "Antes de me tornar um cristão", disse ele, "eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade."

O aspecto positivo: liberdade para

Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.

É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é "supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral", enquanto que livre é aquele "que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto".[10] Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O ver­dadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.

Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram pos­teriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: "Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?" E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades "que mais sensivelmente agitam nossos senti­mentos" (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar "no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus."[11]

A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?

Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal.[12] Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolu­tamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele "não pode" fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. "Ele não pode negar-se a si mesmo."[13] Fazê-lo seria, não liber­dade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.

E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela na­tureza que Deus lhe deu.

O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retan­gulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.

E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água,'os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como huma­nos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. "Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda", disse Mário para Morris. "Nós necessita­mos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar."[14] E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia "tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele".

Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e mor­remos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: "Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo." Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.

O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente autodoador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verda­deira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.

A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a respon­sabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.

Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a no­velista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.

"Você teve a liberdade que queria?"

"Sim", disse ela, esclarecendo sua declaração: "Natu­ralmente, eu sempre era menos livre quando estava apai­xonada por alguém... Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo... Sou livre, sim."

A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir com­pletamente de amar.[15]

Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. "Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á", disse ele; "e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á."[16] Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a "vida" de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa ("me/mim"). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: "Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, re­cusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade." Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.

A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecar­regados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.[17]

Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é "descanso", que parece abranger a idéia de libertação. "Eu vos aliviarei", diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: "Achareis descanso para as vossas almas" (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele "cansados e sobrecarregados", pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é "manso e humilde de coração".

Fonte: STOTT, John. Ouça o Espírito, ouça o mundo. São Paulo: ABU Editora, 2005.


[1] London Magazine, março de 1971
[2] Jo 4.18-19, citando Is 61.1-2
[3] Jo 8.36
[4] Gl 5.1
[5] Following the Equator (1897), Vol. 1, Cap. 27
[6] Cf Sl 130.4
[7] Jo 8.31-34
[8] Fp 3.10
[9] Ef 1.22
[10] Em Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa
[11] Michael Ramsey, Freedom, Faith and the Future (SPCK, 1970), p. 12.
[12] Hb6.18,Tg 1.13; Hb 1.13
[13] 2Tm2.13
[14] Morris West, Children of the Sun (1957; Pan, 1958), pp. 94-95
[15] Esta entrevista apareceu no jornal Le Monde, em 23/06/85
[16] Mc 8.35
[17] Mt 11.28-30

COMO ERAM AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO?

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