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sábado, 24 de dezembro de 2016

O GNOSTICISMO

Frans Leonard Schalkwijk

O gnosticismo estava no ar durante os primeiros três séculos da Era Cristã, influenciando até o Judaísmo e judeus-cristãos, como os elquesaitas. Sem dúvida, o gnosticismo foi a maior ameaça para a igreja, maior do que a perseguição, especialmente por volta de 135 d.C.

A doutrina gnóstica

Em si o nome “gnosticismo” não diz muito. A palavra “neoplatonismo” aponta logo para o sistema de um pensador, mas “gnosticismo” vem de gnosis, conhecimento, em geral. Entretanto, na História Antiga era uma palavra carregada de conteúdo religioso, pois apontava para um conhecimento secreto (gnosis) sobre a salvação da alma. Ensinava que o homem é um espírito encarcerado na matéria, que precisa de conhecimento para saber como chegou a tal situação e como poderia escapar dela.
Para os gnósticos, Deus é como uma bacia transbordante (plêrôma). Um dia, uma de suas "emanações” (éon), o Demiurgo, criou a terra, e os espíritos humanos ficaram encarcerados na matéria (conforme ensina Plotino, “essa é a queda dapsychê, sua entrada na matéria” 1 Ennead 8:11). Mas o éon supremo, o logos Cristo, trouxe a gnosis para o homem voltar para Deus. O homem é material com uma chama divina embutida, e seu espírito somente pode escapar por meio de mortificação (ascese), meditação e êxtase. Mas há grandes diferenças entre os homens. Basicamente, há três degraus entre eles: há os “hílicos” {hide), que são puros materialistas e não progrediram em nada; há os “psíquicos” (psychê), que já subiram um degrau; e finalmente, há os “pneumáticos” (pneuma), que alcançarão a salvação.
Parece tão bonito; contudo, logo se percebe como é falso esse pensamento, porque dessa forma, o espírito seria santo e a matéria pecado (espírito = bom. matéria = mal). Já notamos o engano diabólico fazendo uma pergunta sobre o “topo" da realidade: "Se espírito é idêntico com santidade, e matéria com pecado, quantos gramas pesa o diabo?” A resposta é clara: ele não pesa nada, pois é espírito, e pai também dessa mentira. E pensando na "base” da realidade, deve mos perguntar: "Será que o homem alguma vez foi um deus no mais íntimo do seu ser?” E a resposta é clara também: "Nunca, nem mesmo antes da queda, pois foi criado à imagem de Deus, espiritual e material, sem pecado. É um tipo da primeira mentira do diabo” (ser como Deus, Gn 3.5). Esse gnosis é falso, mas, sem querer, o vírus entrou na igreja pelas conversões de pagãos.

Líderes gnósticos

Bem cedo a igreja se encontrou com representantes dessas idéias. Em Samaria, Simão Mago e a profetisa Helena disseram que eram encarnações de poderes divinos; gostaram da pregação de Filipe e se fizeram membros da igreja. Mas quando o velho feiticeiro ofereceu dinheiro para adquirir outro poder "mágico”, foi desmascarado por Pedro (At 8.10.21). Assim também, o apóstolo Paulo alertou os colossenses quanto ao perigo dessas filosofias pagãs (62 d.C.; Cl 2.8,18-23). Depois, em Efeso (90 d.C.), o apóstolo João precisou combater um certo Cerinto, que afirmava ser Cristo um “éon” que havia descido sobre o homem Jesus. João o combateu firmemente: parece muito bonito, mas de fato, quem nega que Cristo veio em carne está divulgando ensinos do anticristo (1.1-3; 2.22; 4.2,3).
Mais perigosos eram os ensinamentos de Basílicles e de Valentino. Para entender suas idéias devemos lembrar que no gnosticismo há um dualismo básico: matéria é pecado, e por isso Jesus não pode ser o Verbo {logos) encarnado. A doutrina da Palavra de Deus, contudo, é clara nesse ponto (Jo 1).
Há dois métodos de se desviar dela: para o lado esquerdo, tirando algo da revelação, ou para o lado direito, acrescentando algo a ela. Basílides seguiu o primeiro método. Ele trabalhava em Alexandria, centro do helenismo e consequentemente do pensamento gnóstico. Em 24 comentários, reinterpretou o ensino bíblico, como Cerinto o tinha feito. Para ele, Jesus somente podia ser um homem comum. Não é a própria Bíblia que afirma que, na hora do batismo, o Espírito Santo desceu sobre Jesus? Aquele foi o "éon” mais sublime. Cristo, que desceu sobre o homem Jesus, e ficou sobre ele até a cruz, pois não foi o próprio Jesus que ali bradou: “Meu Deus, porque me abandonaste?” O ensino de Cerinto ganhou muitos adeptos no Egito, onde sempre houve grande influência gnóstica. Era tão divulgado que em 1945 foi localizada uma biblioteca gnóstica no sul do Egito, em Nag Hamadi (Chenoboskion), contendo entre outras obras gnósticas O Evangelho da Verdade, a Pistis-Sofia e as Odes de Salomão.

Em Roma havia outro “gnóstico cristão”, Valentino. Basflides havia ‘‘solucionado” o problema do segredo cristológico negando que Jesus era espiritual; agora Valentino foi para o outro lado. negando que Jesus era realmente humano. A maté­ria, por definição, era pecado, conforme Valentino ensinava; logo, Jesus não podia ter um corpo humano como o nosso; deve ter sido um corpo etéreo, eônico. Parecia um corpo, mas não era real. Este ensino se chamou “docetismo”, do grego dokeo, “aparentar, parecer”. Jesus parecia um homem, mas não o era em realidade.
O cristianismo gnóstico (ou seria melhor dizer gnosticismo cristão?) exerceu uma grande influência por causa do seu culto misterioso e elaborado, inclusive com hinos, imagens, etc. Os centros se localizavam no Egito, Síria e Roma; seu florescimento ocorreu por volta do ano 135 d.C. Além das escolas mencionadas, havia ainda muitos outros tipos, como os ofitas, que consideravam a serpente (ofis) como símbolo do pecado e do desenvolvimento. Até o apologista Taciano de Edessa (±175), aluno de Justino Mártir, foi influenciado e aderiu à seita dos encratitas, que praticavam uma ascese (enkrateia) gnóstica rigorosa; abstenção de carne, vinho e matrimônio. Por outro lado, nasceu entre esses grupos uma grande tradição de cântico eclesiástico.

Os polemistas

Todos os teólogos dos primeiros séculos eram combatentes dessa tentativa de tecer um sincretismo entre o Evangelho e esse pensamento pagão. Tal tentativa transformaria o Cristianismo numa filosofia religiosa mística, desvencilhando-o de fatos históricos que eram reinterpretados como mitos. Para os gnósticos, o deus do Antigo Testamento não podia ser o Deus de Jesus Cristo, e o Cristo não podia ter morrido realmente, nem ressuscitado e nem voltaria. Os apóstolos Pedro, Paulo e João foram os primeiros a detectar esse vírus. Conhecendo Pedro e Paulo, dá para entender sua reação enérgica (At 8.21; Cl 2.23). mas a resposta do gentil apóstolo do amor, João, não é menos clara, taxando esse tipo de ensino como propaganda do mentiroso e do anticristo (2. 22) , um outro evangelho, contra a Palavra revelada.
“Não”, disseram também os outros teólogos. Primeiro, foi essa a resposta
dada pelos alunos dos apóstolos, conhecidos pelo título de pais apostólicos, como Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna. "Não” disseram também os apologistas como Justino Mártir. "Não” disseram também os que vieram depois, chamados de Pais da Igreja, como Irineu de Lião e Hipólito de Roma, Tertuliano e Cipriano de Cartago. Clemente e Orígenes de Alexandria. E eles deram um “não” categórico a todos que queriam “desmitologizar” os eventos históricos do Evangelho (como mais tarde faria Rudolf Bultmann cum suis; teosofia, antroposofia).
O claro “não” contra os heréticos resolveu, e durante as primeiras décadas do século 22 umas 12 seitas gnósticas saíram da igreja de Cristo, entre elas os “basilidianos”, os “valentinos” e os “marcionitas”. Estes últimos de marca diferente ainda.
A análise do surgimento histórico do gnosticismo dentro da Igreja Cristã, bem como o combate contra ele levado a efeito pelos primeiros mestres apologetas, nos ajuda a entender melhor a luta que o apóstolo João precisou travar contra os falsos mestres da Ásia. Eles estavam disseminando as sementes daquelas heresias que nos séculos seguintes ameaçariam a existência da própria igreja de Cristo.

LOPES, Augustus Nicodemus. Interpretando o Novo Testamento: Primeira Carta de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 21-24.



sábado, 29 de março de 2014

CRISTO, O SALVADOR DO MUNDO


" E nós temos visto, e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo " - 1 João 4:14.
O tema do testemunho apostólico é infinitamente importante e interessante. É a salvação do mundo pela vinda e mediação de Jesus Cristo - uma conquista considerada pelos poderes angelicais como investido de interesse sublime e eterno. Na encarnação, eles tiveram a honra de anunciar o seu nascimento, com a maior avidez que o serviam em cenas posteriores - no jardim - na cruz - no túmulo, e formou sua escolta para a glória. Ef. 3: 10; 1 Ped. 1:12. - Se os anjos, que não necessitam da salvação, são, portanto, interessados ​​no assunto, o homem rebelde certamente devemos saudá-la com arrebatamento.
I. O OBJETO DA SALVAÇÃO: "O mundo "
1. O mundo é degenerado e caído. O homem foi criado puro e feliz, mas o pecado tornou-o sujo e miserável.
2. O mundo é culpado. Os homens não são objeto de apenas algumas fragilidades e imperfeições, como o orgulho e a hipocrisia, mas são considerados como conspiradores e rebeldes contra Deus. Há um princípio de hostilidade enraizada contra Deus, os homens, por natureza, são os seus inimigos, e eles o mostram de todas as maneiras que podem. Rom. 8:7.
3. O mundo está condenado e amaldiçoado. Gal. 3:10, 22. E oh, o que está implícito nessa maldição! Não a morte do corpo, não apenas aflições temporais - mas perdição sem fim.
4. O mundo é impotente. A partir dessa maldição nenhuma pessoa pode ser salva pelo expediente humano, dispositivo ou esforço. A lei não pode fazer nada para o pecador, tudo é medo e escuridão.
II. QUE CRISTO É O AGENTE DIVINAMENTE DESIGNADO PARA SALVAR O MUNDO. "O Pai enviou o seu Filho".
Cristo está relacionado com o Pai da maneira mais cativante. Ele é o Filho de Deus, o seu próprio Filho, seu único Filho. João 1:14; Heb. 1:3.
A pessoa que enviou foi o ser mais elevado no universo. Superior a Moisés, aos profetas, e todos outros mensageiros de Deus. Superior aos anjos. Hb 1:1-4; 3: 3; Fp 2: 5-9.
O Pai enviou seu Filho para encarnar-se - para aliar-se à nossa natureza - para sofrer e morrer. Ele não poderia ter derramado sangue expiatório, sem se tornar um de nós, Hb 2 :14-18.
Por isso, ele foi a única pessoa qualificada para salvar o homem caído. "O Pai o enviou". Suas credenciais eram divinas.
III. O PROJETO DA SUA DELEGAÇÃO. “Para ser o Salvador do mundo. "
Objeto Sublime e benevolente! João 3:16. Como é diferente da do guerreiro, que sai para invadir, destruir, para derramar sangue, para conquistar!
1 . Ele enviou o seu Filho como um profeta. Que escuridão ele dispersa - que luz ele derrama! Nunca as verdades divinas pareceram tão lúcidas antes. Que revelação da imortalidade!
2 . Ele enviou o seu Filho como um exemplo. Em sua vida e conduta, ele encarna a lei. Nunca antes tinha havido um exemplo tão perfeito e encantador. Sua perfeição de caráter era essencial para seu ofício como o grande sumo sacerdote da nossa salvação, Hb 7:26, bem como para servir de modelo para a imitação dos seus seguidores. 1 Ped. 2 : 21.
3 . Ele enviou-o como o bode expiatório. Para suportar a pena devido à transgressão. É especialmente por isso que ele aparece como o 24-26; 5: 6-8. Seu sacrifício foi perfeito - foi aceito - que era livre - magnífico, e infinitamente benevolente.
4 . Ele enviou-o como um rei conquistador. Ele venceu a Satanás - o pecado - e a sepultura. Ele conquista, por sua palavra e Espírito, os corações rebeldes dos pecadores, e os torna seus amigos. Ele vai conquistar este mundo e salvá-lo. O deserto ainda florescerá como a rosa. Esta terra está destinada a ser o teatro onde ele deve exibir a sua glória.
IV. A EVIDÊNCIA DA SUA DELEGAÇÃO PARA EFETUAR A SALVAÇÃO DO MUNDO. "Nós vimos".
Jesus Cristo não era um impostor. O cristianismo não é uma fraude. Uma pessoa tão eminentemente boa, benevolente e desinteressada como Cristo foi, não poderia ter sido um impostor, e o cristianismo não pode ser uma fraude, já que sua tendência é não só abençoar, mas expor toda a hipocrisia e egoísmo.
Os Apóstolos, de coração e sem escrúpulos testemunharam de Cristo, porque eles tinham "visto" e “ouvido”. Veja 1 João 1: 1-3.
1 . Eles viram que o seu Messias, em seu ensino e vários atos, correspondeu com as profecias do Antigo Testamento.
2 . Eles ouviram a aprovação dele por Jeová desde a mais excelente glória. Veja 2 Pe 1:16-21.
3 . Eles viram seus milagres, ouviram seus ensinamentos, e viram os efeitos maravilhosos de ambos sobre a população.
4. Eles foram testemunhas de seu caráter pessoal, e observaram seu espírito devocional, não só na sua sociedade, mas na sua vida privada. Um ser tão devocional não poderia ter sido um enganador.
5. Ao dar o seu testemunho, eles foram tão plenamente convencidos da divindade de sua missão que eles estavam dispostos a sacrificar a facilidade, o interesse e a própria vida, e eles realmente sofreram o martírio por seu testemunho.

Finalmente. A continuidade do cristianismo até o presente momento prova sua divindade. Nenhuma força foi capaz de deter o seu progresso.

COMO ERAM AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO?

O Evangelho de João relata uma passagem da vida de Jesus que leva algumas pessoas a entender que o Espírito Santo não agia entre o povo d...